Revivo a mágoa
já vivida
E as velhas
lágrimas... a fim
De que
chorando, arrependida,
Possas
lembrar-te inda de mim!
Baladas românticas
IV – Negra
Olavo Bilac.
E ali eu estava, mais uma vez, escorada
na frágil parede de madeira esperando o transporte para ir a escola. Era
entediante estar todos os dias no mesmo lugar, na mesma hora, indo fazer a
mesma coisa que fazia todos os dias. Era entediante, mas por algum motivo
naquele dia eu estava mais empolgada que o comum para ir à minha câmara
mortuária.
Eu sou Anne Bitton, a aluna do 3º ano
de ensino médio da Escola Cônego Leitão, cidadã da popular Castanhal. Eu
deveria passar pelo desastroso processo de ensino na escola, no ano seguinte,
provavelmente, uma faculdade pública de direito – como o meu pai quer – e
deixar os dados rolarem. Era simples e completamente impossível, para mim.
Era impossível pelo fato de que eu
nunca me encaixava em lugar algum, eu era o contrário de todas as outras
garotas da minha idade, na verdade, eu não chegava aos pés delas. Minha vida
social é tão insistente quanto a vontade de cursar direito, pelo fato de
considerar minhas amigas apenas duas garotas, as duas garotas que mais se
odeiam.
Roberta e eu estávamos juntas desde o
primário. Fora a primeira pessoa que falou comigo quando cheguei á pequena
escolinha. Eu era tímida demais para me enturmar com as outras crianças, e ela
passou por todos os estágios da barreira que eu tinha colocado em meu coração.
Ela não se importou em ficar do meu lado. Ela era uma das garotas mais bonitas
da escola. Os cabelos eram cacheados e batiam pouco abaixo dos ombros, era
baixinha, pouco mais de 1,55m, os olhos eram de um castanho claro e uma pele
morena, pouco mais clara que a minha.
Cecília era o contrário dela. Havíamos
nos conhecido no começo do ano passado. Em uma das piores brigas que tive com a
Roberta. Ficamos mais de um mês sem nos comunicarmos, mas Cecília não se
importou em me ajudar á superar a ausência dela. Apesar de ser linda e
conseguir todos os garotos que ela quisesse, Cecília não se importava com a
aparência dos outros.
Ela tinha com cabelos negros, batendo
abaixo dos ombros, meio ondulados, os olhos eram de um verde intenso, a pele
era branca, mas constantemente bronzeada, os lábios eram grandes e cheios, em
um tom natural de vermelho, tinha pouco mais de 1,65m. Ela era, provavelmente,
a garota mais bonita de toda a escola.
Roberta e Cecília se odiavam, mas antes
de tudo isso elas eram amigas, e se adoravam, mas por algum terrível motivo
haviam entrado em uma guerra louca, e eu estava no meio do campo de batalha, eu
era a Helena de Tróia entre os gregos e troianos.
Cheguei à escola minutos antes do sinal
soar indicando o tempo limite para a entrada. O tempo estava mais frio do que
de costume, no entanto não era inverno. O céu se tinha escuro, uma camada de
neblina cobria completamente a cidade e o vento soprava forte.
Os corredores estavam úmidos e frios,
estremeci com tudo aquilo. Afaguei meus braços tentando esquentá-los, mas não
adiantava, estava muito mais frio do que qualquer dia anterior. Não deveria
estar passando dos 15º naquela manhã, e por algum terrível motivo eu havia
esquecido o único casaco de frio que eu tinha em casa.
Com meus dentes batendo uns nos outros
entrei na sala. Todos ali pareciam estar preparados para o frio daquela manhã,
exceto eu. Eu me comunicava com quase todos eles, mas muito raramente. Cumprimentei
os garotos no fundo da sala e andei para sentar-me na cadeira de costume:
encostada na parede, na divisão entre duas panelinhas da sala. O grupinho dos
garotos ficava atrás de mim, eles, provavelmente, eram o grupo mais legal
daquela sala, e á minha frente se tinha o grupo dos que não queriam nada com
nada, eram vários garotos e duas meninas.
Roberta chegou pouco depois de mim,
colocou as coisas ao lado da garota com quem ela sentava todos os dias e seguiu
para me cumprimentar, sentando-se na cadeira ao lado da minha, a qual nunca
fora ocupada. Ninguém gostava de sentar ao meu lado... Eu era calada demais.
- Esqueceu o casaco? – Perguntou
sorrindo.
Revirei os olhos e bufei. Ela gargalhou
e tagarelou por alguns minutos sobre o dever de Biologia para a quarta aula,
lembrando-se de cada detalhe insignificante que eu havia feito, como o
cruzamento de um casal AaXaa para olhos azuis.
Mas ao ver Cecília entrando na sala ela
bufou, levantou-se da cadeira, se despediu de mim e voltou á mesa dela. Cecília
revirou os olhos, sentou na primeira cadeira da fila ao lado da minha e acenou
na minha direção, acenei para ela de volta. O professor de História entrou,
colocou as coisas em cima da mesa, nos cumprimentou e saiu da sala novamente.
Quando a porta se abriu, um cheiro
maravilhoso de primavera japonesa entrou, um perfume que me era familiar, mas
que eu não sabia á quem pertencia. Escutei o professor sorrir alto do lado de
fora, e outra gargalhada melodiosa seguida da dele. Eu não conhecia o dono
dela, mas sabia que pertencia á um garoto.
O professor voltou á sala e com ele
entrou o garoto mais belo que eu já havia visto em toda a minha vida. Ele
parecia ter saído da revista de moda masculina que minha prima havia comprado
na semana que havia se passado. Era alto, mais de 2,10m de altura, muito mais
branco que qualquer outro que eu já havia visto, tinha os braços fortes, mais
musculosos que os dos outros garotos da minha turma, os olhos eram negros e
puxados, ele era asiático, com toda a certeza, rodeados por longos e cheios
cílios negros, uma sobrancelha grossa e perfeitamente desenhada, os lábios eram
cheios e vermelhos, e os cabelos, diferente do de todos os outros garotos, eram
incrivelmente longos, batendo abaixo da bunda, e negros, ainda mais negros que
os olhos.
Escutei várias garotas suspirando ali
perto. Observei os lábios de Cecília se arreganharem em um sorriso, e por algum
motivo senti ciúmes, algo que eu não tinha direito de sentir. Eu nem o
conhecia.
Mas ele não percebeu nada disso, seus
olhos vasculharam toda a sala, ele pareceu sentir um perfume, sorriu e olhou na
minha direção, fixando em mim o olhar penetrante dele. Baixei a cabeça
envergonhada, todos pareceram me olhar, e aquilo me deixava constrangida.
Fiquei ainda mais vermelha quando percebi que só havia duas cadeiras vagas na
sala: a do lado de Cecília e a do meu lado. Suspirei aliviada, ele
provavelmente iria escolher Cecília.
- Alunos este é Ryuuken Kasaki, chegou
de Tóquio para estudar conosco. – Falou o professor com a mão no ombro dele. – Espero
que finjam que são educados e não fiquem pegando no pé do garoto. – Falou
olhando na direção do grupo á minha frente.
Todos na sala riram, o professor e ele
falaram entre si por alguns segundos, eles riram juntos e em seguida o garoto
começou a andar para se sentar. Cecília sorriu e piscou na direção dele, mas
ele não pareceu perceber, tinha os olhos fixados em mim. Envergonhada, baixei a
cabeça. Escutei-o sentar-se ao meu lado, senti nossos braços se tocarem. A
jaqueta preta que ele vestia estava quente, mas o ar frio ao redor me fez
estremecer.
- Não tens casaco? – Perguntou
preocupado.
Estremeci mais uma vez com a voz dele,
a qual era ainda mais melodiosa que sua risada, era uma voz rouca, sedutora e
triunfante, do tipo que os líderes antigos tinham. Constrangida baixei a
cabeça.
- Esqueci em casa. – Murmurei voltando
a olhá-lo. – É raro fazer frio aqui. – Expliquei.
Ele riu e concordou. Deslizou a jaqueta
pelos braços, deixando assim à mostra o largo e desenhado peito coberto pela
fina farda da escola. Suspirei, aquele deveria ser o cara mais bonito que havia
pisado naquela escola, ou melhor, o cara mais bonito que havia pisado na
cidade. Ele me entregou a jaqueta, deixando-me envergonhada.
- Por... Por quê? – Perguntei
assustada.
- Não quero que fique doente. –
Respondeu sorrindo.
- Ah, obrigada. – Agradeci
constrangida.
Deslizei a jaqueta pelos meus braços,
apreciando o toque do tecido macio e quente em minha pele. As mangas haviam
ficado mais compridas que o normal, mas não interferiu em nada. A jaqueta
estava quente e concentrava ainda mais o perfume dele. Inspirei longamente
aquele perfume maravilhoso.
Todos na sala olhavam abobados aquela
cena. O garoto que havia rejeitado Cecília acabara de entregar a própria
jaqueta à uma garota que não chegava nem aos pés dela.
Fiquei calada o tempo todo durante as
três aulas de História. Ele rabiscava despreocupadamente algumas coisas no
caderno com a caligrafia elegante, sem se importar em prestar atenção na aula,
na verdade, nenhum de nós dois prestava atenção no que o professor tagarelava
na frente do quadro.
Quando o sinal soou indicando o
intervalo, o professor saiu da sala em silêncio, mais calmo do que em todos os
outros dias. Levantei da cadeira me esticando, percebi que ainda tinha vestida
a jaqueta dele. Envergonhada e sem vontade nenhuma eu a tirei.
- Obrigada mais uma vez. – Agradeci
entregando-a a ele.
- Acho que deveria ficar um pouco mais
com ela. – Respondeu se levantando da cadeira. – Não deve estar passando dos
17º.
Tive que erguer a cabeça para olhá-lo
nos olhos. Ele sorria, e acabei me perdendo em seu sorriso. Ele colocou a
jaqueta sob os meus ombros, assenti com a cabeça e tornei á passa-la pelos
braços. Agradeci novamente, parecendo uma máquina.
Ele me olhou fixadamente nos olhos, não
pude me libertar daquilo. Seus olhos negros me prenderam ali e não pude
desviar. Então ele me pareceu estranhamente familiar, como se nos conhecêssemos
a vários anos. Tudo nele me parecia familiar: seu sorriso, seus olhos, seu
perfume, a voz e até mesmo o jeito que ele falava. Mas eu tinha quase certeza
de que nunca havia o visto. Até onde eu sabia nunca havia estado em Tóquio,
para a minha tristeza.
- Então? – Finalizou uma pergunta que
eu não havia escutado.
- Ãn? O que... O que você disse? –
Perguntei saindo de meu devaneio.
- Perguntei se não queria me ajudar á
encontrar a lanchonete. – Ele sorriu. – Cheguei atrasado hoje e passei correndo
para a secretaria, não tive tempo de ver nada.
Pisquei os olhos atordoada. Havia algo
errado com esse garoto, era a única resposta sensata. Ele estava tentando ficar
sozinho comigo, isso era óbvio, até por que a lanchonete era uma das poucas
coisas que se era possível ver do prédio da secretaria.
Mas por que diabos ele iria querer
ficar á sós comigo? Eu era
deliberadamente comum. Sem tirar nem por. Ele poderia ir com Cecília, ou até
mesmo com Roberta, se ela não fosse comprometida, ou melhor, ele poderia ficar
á sós com qualquer garota linda da escola.
Ou ele realmente não havia visto a
lanchonete ou era cego!
- Ah... Tudo bem. – Concordei
assustada.
Peguei meu celular no bolso menor da
mochila e algumas notas de dinheiro na carteira, para o caso de realmente
estarmos indo á lanchonete. Observei Cecília andar na minha direção.
- Anne? – Chamou-me enquanto eu fechava
a mochila.
- Humm? – Murmurei dando á entender que
estava prestando atenção.
- A Helena quer ir lanchar naquela
lanchonete que tem do lado de fora, perguntou se você quer ir. – Respondeu
olhando maliciosamente para o garoto ao meu lado.
- Ah, não, obrigada. – Respondi. – Vou
com ele á lanchonete da escola mesmo.
Ela me olhou assustada, então assentiu
com a cabeça, mas antes de sair piscou na direção do garoto, ele sorriu, mas
não com a mesma intenção que ela. Vi Helena olhar assustada na minha direção,
seus olhos perguntavam o que todos ali queriam saber: que ligação eu e ele
tínhamos. E para ser sincera nem eu mesma sabia dessa ligação.
- Vamos? – Perguntou sorrindo.
- Ah, claro. – Concordei retribuindo o
sorriso, e ele pareceu maravilhado.
Andamos lado a lado para as escadas.
Ele estava tão próximo de mim quanto na aula, por algum motivo estranho ele
parecia querer estar comigo. Envergonhada arrumei o cabelo atrás da orelha e
tirei um pouco da franja dos olhos e o olhei pelo rabo do olho, ele me olhava disfarçadamente.
Não percebi que tropeçara em meus pés
enquanto descia os degraus. Tombei para o lado, bati a cabeça no corrimão da
escada, mas antes que eu tocasse o chão ele me segurou, tão rápido quanto um ser humano poderia ser.
- Você está bem? – Perguntou com o
terror nítido na voz.
- Estou. – Murmurei envergonhada.
Senti minha cabeça latejar, deixei um
gemido baixo sair da minha boca. Ele me olhou assustado, não parecendo
convencido com a minha resposta. Ele me ajudou á levantar, com cuidado para não
me machucar.
- Não estou muito convencido disto. –
Falou.
- Estou bem. – Disse irritada, me
livrando dos braços dele.
Talvez ele tivesse me deixado sair se
eu não houvesse quase caído mais uma vez. Cambaleei para o lado d novo, mas
antes que eu caísse de novo ele me pegara pela cintura.
- Acho que devo levar-lhe para a
enfermaria. – Falou.
- Não sei se em Tóquio existe
enfermaria nas escolas, mas aqui não é bem assim o sistema. – Murmurei.
Ele apenas riu, me ergueu nos braços,
me assustando, me constrangendo e me irritando. Meu corpo foi de encontro com o
peito forte dele, balancei conforme ele andava. Ele parecia não ter problemas
com o meu peso, parecia que para ele eu pesava 6 kg ao invés de 60.
As pessoas se viravam para olhá-lo me
carregando para a sala da coordenadora, que para o meu constrangimento era uma
conhecida minha e de Cecília. Nem precisamos chegar á coordenação para que ela
corresse na nossa direção.
- Meu Deus! O que houve? – Perguntou
ela tirando a franja de minha testa.
- Ela quase caiu da escada quando
vínhamos para cá. – Respondeu ele. – Acho que bateu a cabeça, bem aqui. –
Indicou colocando o dedo na parte de trás de minha cabeça.
Ela o guiou para a sala da coordenação,
indicou um pequeno sofá preto no canto da sala e pediu que ele me colocasse
ali. Ele concordou, me colocando deitada no sofá. Bufei irritada, ele não
precisava ter chamado tanta atenção.
- Não precisava disso. – Murmurei.
- Você não estava nem conseguindo se
manter de pé. – Respondeu. – Queria que eu a deixasse cair da escada mais uma
vez?
- Não, mas fez um fuzuê na escola toda.
– Disse tentando me sentar no sofá, mas minha cabeça girou.
A coordenadora me olhou preocupada,
andou na minha direção e se colocou ao lado dele. Ela me olhava ainda
preocupada.
- Fique quieta querida. – Pediu. – Quer
ir para casa? – Perguntou prestativa.
Ir
para casa seria uma boa.
Pensei nos prós e contras de ir para
casa: lá eu não poderia estar com ele, – na verdade eu não sabia se isso era um
pró ou um contra – teria mais chance para pensar, não iria tropeçar em meus pés
olhando para ele.
Mas os contras eram mais: eu não
poderia estar com ele – aqui era um contra -, eu não iria sentir o perfume
dele, eu iria deixar todos pensando que estava fugindo dele, e todos pensariam
que tínhamos alguma coisa.
Ela saiu da sala antes de escutar minha
resposta. Ele alisou o cabelo em um gesto despreocupado, me olhando. Sentei no
sofá e desta vez consegui me manter estável. Ele me olhou, suspirou e sorriu.
- Me desculpe. – Pediu cruzando os
braços.
Eu assenti com a cabeça, o olhando de
baixo. Senti-me completamente estranha, como se eu já não fosse aquela Anne de
horas mais cedo, como se cada terminação nervosa de meu corpo houvesse acordado
e estivesse me deixando louca na presença dele. Como alguém que eu mal conhecia
já estava me deixando naquele estado? Quem era aquele homem? Que ligação era
essa que nós tínhamos?
- Eu sei o que está pensando. – Falou
me assustando.
- Sabe? – Perguntei assustada.
- Sim. Está se perguntando qual é a
nossa ligação. – Respondeu fazendo com que eu pulasse de susto.
- Como... Como sabe?
Ele riu, se sentou ao meu lado, afastou
a franja de minha testa e me olhou profundamente, me encarando como nunca
ninguém havia feito. Não consegui desviar meus olhos dos dele, por alguma razão
estava presa á ele.
- É preciso de um tempo para que eu
possa te contar tudo, com todos os detalhes, e que você possa se lembrar, mas
nós já nos conhecemos á 8 anos. – Respondeu.
O olhei assustada. Eu sabia que
tínhamos alguma coisa nos ligando, mas não tinha certeza de que nos
conhecíamos. Eu tinha certeza de que se eu realmente o conhecesse eu não o
havia esquecido. Ele era o tipo de cara que não se esquece assim.
- Eu só preciso que confie em mim. –
Pediu tocando meu rosto com a ponta dos dedos.
- Confiar? Por que confiar? –
Perguntei.
- Por que eles não brincam em serviço. – Murmurou com a voz martirizada.
- Do que está falado? Quem não brinca
em serviço? – Perguntei mais assustada que antes.
Ele ficou calado por um tempo, olhou a
praça pela janela, ou tentando se esquivar de minha pergunta ou procurando a
resposta correta para ela. Passados quase cinco minutos eu já estava inquieta.
- Ryuuken? – Estremeci ao falar o nome
dele.
- Ryuu. – Falou.
- Como? – Perguntei assustada.
- Me chame de Ryuu apenas. – Pediu
calmamente.
- Ah, então... Ryuu. Qual é a resposta?
– Perguntei mais uma vez.
Mais uma vez ele ficou distante,
procurando a resposta. Suspirei irritada. Mas ele demorou menos que antes.
- Só confie em mim, por favor. – Pediu
mais uma vez.
Confiar... Nele? Eu não costumava
confiar direito nem em Roberta e Cecília, imagine naquele estranho. Mas seus
olhos me pareciam verdadeiros, ele não parecia estar mentindo, mas escondia
algo realmente perigoso.
- Ryuu, eu... Eu tenho problemas em confiar
nas pessoas. – Murmurei com a cabeça baixa . – E... E eu tenho o gênio um pouco
forte demais. Não vai aguentar uma semana.
Ele riu, alisou meu cabelo e colocou um
cacho atrás de minha orelha. Ele me puxou para mais perto e me abraçou. Aquele
fora o primeiro garoto que me abraçara em anos.
Estremeci em contato com a pele quente
dele, com o rosto enfiado em sua clavícula, suspirando longamente seu perfume
delicioso. Ele encostou o rosto no topo
de minha cabeça e ali depositou um beijo.
- Eu já passei por todos os estágios de
seu coração uma vez. Agora já sei as trapaças certas. – Brincou acariciando meu
rosto.
Sorri debilmente para ele, o qual me
devolveu um sorriso ainda mais largo e mais perfeito. Com o polegar ele
desenhou o contorno de meus lábios e devaneou por alguns minutos, me olhando
profundamente.
Vi Cecília, Roberta e Aurora na porta
da sala da coordenação, nos olhando abobadas. Ele suspirou, podemos dizer que
um pouco irritado, e se afastou alguns centímetros de mim. Roberta andou na
minha direção e se sentou na cadeira á minha frente.
- Obrigada por socorrê-la. – Agradeceu
á ele, sorrindo. Ele assentiu, também sorrindo, mas sem desviar os olhos de
mim. – E você deveria tomar mais cuidado e olhar direito por onde anda. Você
pode saber de muita coisa, mas diferente da sua imaginação, você não pode voar,
O.K? – Ralhou-me.
- Desculpe-me. – Pedi baixando a
cabeça.
Cecília andou na nossa direção, seguida
por Aurora. Ela se sentou no braço do sofá e acariciou meus cabelos.
- Tropeçou de novo? – Perguntou
preocupada.
Apenas assenti com a cabeça. Ela
suspirou ali. Aurora me olhou, balançando a cabeça negativamente.
- Também lhe agradeço. Ela não presta
muita atenção em por anda e tropeça constantemente. – Agradeceu Cecília.
- Não precisam contar á ele meus
problemas de equilíbrio. – Murmurei envergonhada. Ele riu do meu lado.
- Você vai para casa? – Perguntou
Aurora.
- Acho que estou bem o suficiente para
enfrentar a aula de Biologia. – Murmurei.
Ela riu junto de Cecília e Roberta.
Ryuu passou o braço por cima de meus ombros e brincou com o meu cabelo, sem se
importar com elas ali.
- Acho que você está bem acompanhada,
então vamos voltar para a sala de aula Aurora... Cecília. – Falou Roberta,
quase cuspindo o nome de Cecília, a qual revirou os olhos.
- Cuidado com ela. – Pediu Cecília
antes de sair com as duas. Ele assentiu.
Quando elas passaram novamente pela
porta, ele tornou á me abraçar, me deixando confortável e envergonhada ao mesmo
tempo. Ele continuou afagando meus cabelos, e devaneou por um tempo.
- Quer que eu á leve para casa? –
Perguntou quando o sinal soou indicando o final do intervalo.
- Não, eu posso assistir a aula de
Biologia. – Respondi.
- Tem certeza?
- Estou bem. – Falei mais uma vez.
Ele suspirou e assentiu com a cabeça.
Levantou-se e me esperou de pé, ao lado do sofá. O segui, sem sentir a cabeça
girando. Ele me guiou com o braço em meus ombros para fora da sala da
coordenação, na direção da sala de aula. Subimos as escadas com mais cuidado
que antes, e todos viraram para nos olhar quando entramos na sala.
Sentei á minha mesa e abri o caderno na
matéria de Biologia, observei a atividade por um segundo procurando alguma
falha, mas não encontrei. Eu costumava fazer aquilo antes de entregar um
exercício, no entanto, naquele momento, eu queria era desviar um pouco da
atenção dele.
A professora entrou na sala minutos
depois, começou á pedir a atividade por ordem da caderneta, se demorando nas
atividades de Cecília e Aurora, - as duas costumavam enrolar ela – e
parabenizou Roberta quando ela saiu de lá.
- Ryuuken? – Escutei-a chamar da mesa
dela.
Ele assentiu, andou na direção da mesa
dela. Eles ficaram conversando por quase 10 minutos, em voz baixa. Quando ela
falava ele ficava quieto e apenas assentia, só vi seus lábios se movimentarem
algumas vezes, e me perdi neles.
Qual seria a sensação de beijá-lo?
Aquela boca tão perfeita e carnuda tocando a minha, beijando cada canto de meu
rosto e de meu pescoço, aqueles braços fortes e quentes em torno de minha
cintura, aquelas mãos grandes acariciando meu rosto.
Arg,
pare de pensar nisto idiota!
Mas que ele era uma perdição, isso ele
era. E mesmo quem não pode comprar pode olhar a vitrine, não pode? Pode desejar
e imaginar, não é?
- Anne? – Chamou-me ele sentando-se ao
meu lado.
- Ãn? Como? – Perguntei balançando a
cabeça freneticamente.
- Perguntei se estava se sentindo bem.
- Ah, sim, estou. – Murmurei
envergonhada.
- Tem certeza? Posso levar-lhe para
casa agora. – Ofereceu. – Você bateu muito forte com a cabeça.
- Estou bem. – Suspirei.
Ele pareceu deixar passar essa, relaxou
na cadeira e rabiscou alguma coisa no caderno. Olhei, mas para a minha surpresa
estava tudo em japonês.
O que ele tanto escrevia ali? O que
significavam aqueles kanjis? Na verdade, quem era ele? Ou melhor... O que era ele? Toda aquela perfeição não
poderia ser real, mas também não era imaginação. Ele me tocou, me abraçou, eu
ainda vestia a jaqueta dele, sentia seu perfume no ar. Sabia que era boa em
imaginar coisas, mas eu não poderia inventar tudo aquilo.
Desviei os olhos do caderno dele quando
meu celular vibrou sob minhas pernas. Ele olhou pelo rabo de olho, mas voltou
ao caderno em seguida. Abri a sms, era de Cecília.
“Precisamos
conversar seriamente quando sairmos!”
Meus olhos vagaram até ela, a qual me
olhava. Dei os ombros como se perguntasse o porquê. Ela apenas balançou a
cabeça e movimentou os lábios como alguém que falava: na saída.
Bufei de raiva e quase bati com o
celular na mesa. Cecília iria me encher de perguntas que nem eu sabia a
resposta. Tinha que dar um jeito de fugir antes da saída. Então senti minha
cabeça latejar onde eu havia batido, levei a mão até o local e flexionei um
pouco.
- Está tudo bem mesmo? – Perguntou mais
uma vez.
- Acho que vou aceitar a sua proposta
de me levar para casa. – Disse forçando um sorriso débil. Aquela dor viera na
hora certa.
Ele levantou e andou à mesa da
professora, eles conversaram em voz baixa por alguns segundo e em seguida ele
voltou à nossa mesa. Guardou as coisas dele e, antes que eu pudesse, guardou as
minhas.
Andamos lado a lado até a porta, a
professora me desejou melhoras e Cecília me olhou irritada, sabia que eu estava
fugindo dela. Mas aquela era a pior opção de fuga. Eu queria ter espaço para
pensar e ele iria estar comigo até que eu chegasse à parada de ônibus.
Andamos em silencio para fora da
escola, passei direto pelo BMW branco do lado de fora. Mas ele me puxou quando
continuei á andar.
- Aonde vai? – Perguntou ele.
- Como? Vou para a parada de ônibus
esperar para ir para casa. – Respondi assustada.
- Eu falei que iria levar-lhe para
casa, não falei? – Perguntou.
- Sim, mas não se pode ir de pé para a
minha casa. – Respondi.
- Quem te falou que vamos de pé? –
Perguntou rindo e indicando o carro.
- Você tem um carro? – Perguntei
assustada. – O que faz em uma escola pública se tem dinheiro para comprar um
carro desses?
- Em breve irá saber. – Respondeu
abrindo a porta do carro para que eu entrasse.
Bufei irritada e entrei no carro, ele
andou rindo para o lado do motorista, minha irritação passou com o riso dele,
mas ainda sentia uma raiva profunda por não saber de nada.
Ele deu partida no carro, mas antes de
sair ele se virou para mim, me olhou por alguns segundos e pegou um de meus
cachos, enrolando-o no dedo dele.
- Desculpe-me por não lhe contar ainda.
– Pediu. – Não quero que fique remexendo tudo na sua cabeça.
- Ryuu, você apareceu do nada dizendo
que me conhece á 8 anos, provavelmente veio á essa escola para me procurar por
algum motivo e não me conta. – Suspirei envergonhada. – Que tipo de relação nós
tínhamos? Ou temos, sei lá.
Ele suspirou, relaxou no banco e olhou
o céu. O tempo não havia mudado, o céu ainda estava escuro e uma camada fina de
neblina cobria a cidade. Ele se virou para me olhar.
- Nós nos conhecemos quando você
precisou de ajuda, quando descobriu que seu pai não era seu pai biológico. –
Respondeu me assustando.