O homem estava acorrentado, jogado em
algum lugar escuro no fundo do calabouço. O ar frio e úmido que poderia fazer qualquer
outro ser congelar não surtia nenhum efeito nele. Seus longos cabelos negros
caiam em sua face, escondendo a grossa e pesada venda de ferro que o cegava. O
sangue quente escorria por toda a extensão branca de sua pele, tingindo-a de
vermelho.
Ele sorriu, mostrando os perfeitos e
reluzentes dentes brancos, agitou as grossas correntes e as deixou desabar no
chão, fazendo com que as paredes estremecessem com o impacto. Ele sorriu mais
uma vez, apesar dos visíveis machucados espalhados por todo o corpo.
Era possível escutar o som de passos ao
longo do tenebroso e escuro corredor. A porta se abriu, o carrasco entrou por
ela, com um largo sorriso no rosto.
- Deixou seu pai muito furioso,
Ryuuken. Estou tão triste que isto tenha que acontecer a você. – O homem
sorria, se contradizendo. Estava claro que ele não sentia nenhum pouco. –
Chegou a hora do seu julgamento.
Ryuuken sorriu, o homem o puxou pelas
correntes e o ergueu, com um único braço. Os olhos vermelhos dele estavam
cheios de excitação. Ele esperava aquele momento á muito tempo. Nada iria tirar
dele o gosto da vitória.
Levar o filho do rei que o havia
desobedecido para a condenação, colocando em perigo toda a raça, era o seu
maior sonho desde a noite da noticia da traição do príncipe mestiço, - o fato
de ele ser um mestiço já era uma afronta á toda a raça, mas para o rei isso não
era desculpa, ele tinha que cumprir as obrigações, ser tratado como o príncipe
revoltado de todo aquele reino... Reino este que deveria ser dele. – por pura
luxúria.
Maldita
sangue-ruim.
Pensava enquanto arrastava o príncipe
pelo corredor, sem se importar com os tufos de penas negras que ficavam no
caminho, as asas, que dias antes haviam sido quebradas, já estavam
completamente curadas.
No fundo o carrasco estava
decepcionado. Queria que o príncipe resistisse mais. Aquele era o filho do rei?
O tão poderoso Ryuuken Kasaki? Vencedor de inúmeras guerras e batalhas em seu
pequeno milênio de vida? Aquele era o descendente do inferno? O filho de
Lúcifer?
Que
príncipe imbecil.
Parecia que todos os habitantes da
dimensão dos reis estavam do lado de fora do tribunal, apenas por não poderem
entrar senão o tribunal estaria completamente lotado de pessoas. Aquele seria o
julgamento do século, nenhum rei antes dele havia condenado o próprio filho,
com tamanha frieza.
Dentro do tribunal o clima era ainda
mais cheio de expectativa. Os reis cochichavam entre si, mas Lúcifer estava
calado, pensativo, não deixava nenhuma emoção atravessar seu rosto de pedra.
Sentado no enorme e confortável trono viu o carrasco entrar arrastando seu
filho, o seu herdeiro.
Pela primeira vez no dia um discreto
sorriso surgiu em seus lábios.
O prisioneiro sabia exatamente onde o
pai estava, ele conhecia muito bem aquele homem. Ele havia matado sua mãe, o
arrastado com ele para o inferno, o trancafiado em um calabouço e o esquecido
por vários séculos naquele lugar. Aquele, acima de seu rei, era seu pai. O
homem que ele mais havia odiado, o único ser que ele realmente queria ver
morto.
A venda de ferro foi arrancada dos
olhos do prisioneiro. Seus traços orientais eram tão visíveis quanto a pele
incrivelmente branca, mas diferente dos olhos dos outros de sua raça, os dele
não eram vermelhos, eram negros, negros como o ônix e emanavam uma emoção que
não era possível ser percebida em nenhum de seus “semelhantes”.
De seus lábios vermelhos e cheios brotou
um sorriso irônico, o sorriso evoluiu para uma gargalhada sinistra e alta. Os
lábios do pai se contraíram em uma linha fina. Ele estava visivelmente
irritado.
O conselheiro se pronunciou.
Contravontade. Ele era o seu melhor amigo.
- Ryuuken, mestiço, um híbrido. Filho
de Lúcifer. – Ele retraiu os lábios com raiva. – Sabe a razão de estar aqui?
O prisioneiro bufou, mas não de raiva,
bufou com desdém.
- É claro que sei. – A voz dele
assustou todos os presentes, fez com que até mesmo os reis estremecessem. Ele
riu alto, e então prosseguiu, com a voz ainda mais triunfante. – Estou sendo
acusado de roubo, assassinato, revelação de segredos, propagação de ideias
obscuras à raça dos demônios, propagação de ideias revolucionárias à revoltosos
e proteção indevida, crimes que em suma maioria não cometi.
- Estás negando? Negando os crimes que
todos os aqui presenciaram a execução? Nega?
Lúcifer levantara-se em um pulo do
trono, com a voz irritada, fazendo com que todos se assustassem. A voz dele
parecia cortar cada centímetro de bondade do coração dos ali presentes,
assustava até mesmo os mais corajosos ali. Ele havia se exaltado.
O prisioneiro sorriu.
- Nego.
Lúcifer apertou os olhos, ainda mais
irritado que antes. Alisou os cabelos para traz, e então o fitou novamente, com
os imensos olhos vermelhos.
- Podereis negar a maioria desses
crimes, mas terás coragem de negar que protegeu o ser que deveria ser
destruído? O ser que coloca todas as espécies aqui em risco? – Lúcifer sorriu.
– Nega que protege aquela sangue-ruim por que está apaixonado por ela? – O prisioneiro ficou calado, bufando de raiva.
– Estão vendo? Ele não nega! Ele coloca em perigo todos os nossos irmãos por
luxúria, ou não confirma que sonha todas as noites em ter aquela mulher com você
na sua cama, em beijá-la, amando-a?
Negue os desejos de seu corpo, Ryuuken. Nega? Nega que coloca seus irmãos em
perigo por puro egoísmo, por querê-la apenas para você e deixar que ela o
conduza ao caminho do pecado e da perdição.
- Cale a boca Lúcifer. – Gritou
tentando se livrar das correntes. – Quem pensas que és para falar em pecado e
perdição? Você traiu o seu criador por poder!
Aquilo fora a gota d’água para Lúcifer.
Como se não bastasse ter desobedecido suas ordens ainda tinha coragem de
acusá-lo na frente de todos os reis, de todo o júri e defensores. Ele poderia
ser o príncipe, mas era um rebelde.
- Você, Ryuuken Kasaki, está condenado
á morte, pelos crimes de roubo, assassinato, revelação de segredos, propagação
de ideias obscuras à raça dos demônios, propagação de ideias revolucionárias à
revoltosos e, principalmente, pelo crime de proteção indevida ao ser que lhe
foi confiado a morte. – Lúcifer parou e riu. – E condenamos também, Anne
Bitton, pelo futuro incerto que ela nos deixa á frente, pelo fato de que não
sabermos como enfrentá-la.
- Não. – Gritou o prisioneiro.
A fúria encheu seus olhos, o sangue
correu mais rápido nas veias. As correntes se arrebentaram, as longas asas
começaram á bater, o levantando no ar. Aquela era a mulher que ele amava, e ele
jamais deixaria que ninguém chegasse á pensar em matá-la. Ele não iria continuar vivo sem ela.
- Você não tocará nenhum dedo nela. –
Ele sorriu, e desapareceu no alto do tribunal.
- Peguem-no, e o tragam de volta...
Mesmo morto. – Ordenou Lúcifer, com os olhos repletos de uma expectativa louca.
O carrasco ficou no chão, olhando
irritado toda a cena. Sabia que o príncipe não deixaria isto assim. Estava fácil demais para ser verdade. Bufando
irritado e decepcionado, arrastou os pés e voltou ao calabouço, sem nem um
pingo de sangue real na espada.
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