terça-feira, 27 de agosto de 2013

Condenação


O homem estava acorrentado, jogado em algum lugar escuro no fundo do calabouço. O ar frio e úmido que poderia fazer qualquer outro ser congelar não surtia nenhum efeito nele. Seus longos cabelos negros caiam em sua face, escondendo a grossa e pesada venda de ferro que o cegava. O sangue quente escorria por toda a extensão branca de sua pele, tingindo-a de vermelho.
Ele sorriu, mostrando os perfeitos e reluzentes dentes brancos, agitou as grossas correntes e as deixou desabar no chão, fazendo com que as paredes estremecessem com o impacto. Ele sorriu mais uma vez, apesar dos visíveis machucados espalhados por todo o corpo.
Era possível escutar o som de passos ao longo do tenebroso e escuro corredor. A porta se abriu, o carrasco entrou por ela, com um largo sorriso no rosto.
- Deixou seu pai muito furioso, Ryuuken. Estou tão triste que isto tenha que acontecer a você. – O homem sorria, se contradizendo. Estava claro que ele não sentia nenhum pouco. – Chegou a hora do seu julgamento.
Ryuuken sorriu, o homem o puxou pelas correntes e o ergueu, com um único braço. Os olhos vermelhos dele estavam cheios de excitação. Ele esperava aquele momento á muito tempo. Nada iria tirar dele o gosto da vitória.
Levar o filho do rei que o havia desobedecido para a condenação, colocando em perigo toda a raça, era o seu maior sonho desde a noite da noticia da traição do príncipe mestiço, - o fato de ele ser um mestiço já era uma afronta á toda a raça, mas para o rei isso não era desculpa, ele tinha que cumprir as obrigações, ser tratado como o príncipe revoltado de todo aquele reino... Reino este que deveria ser dele. – por pura luxúria.
Maldita sangue-ruim.
Pensava enquanto arrastava o príncipe pelo corredor, sem se importar com os tufos de penas negras que ficavam no caminho, as asas, que dias antes haviam sido quebradas, já estavam completamente curadas.
No fundo o carrasco estava decepcionado. Queria que o príncipe resistisse mais. Aquele era o filho do rei? O tão poderoso Ryuuken Kasaki? Vencedor de inúmeras guerras e batalhas em seu pequeno milênio de vida? Aquele era o descendente do inferno? O filho de Lúcifer?
Que príncipe imbecil.
Parecia que todos os habitantes da dimensão dos reis estavam do lado de fora do tribunal, apenas por não poderem entrar senão o tribunal estaria completamente lotado de pessoas. Aquele seria o julgamento do século, nenhum rei antes dele havia condenado o próprio filho, com tamanha frieza.
Dentro do tribunal o clima era ainda mais cheio de expectativa. Os reis cochichavam entre si, mas Lúcifer estava calado, pensativo, não deixava nenhuma emoção atravessar seu rosto de pedra. Sentado no enorme e confortável trono viu o carrasco entrar arrastando seu filho, o seu herdeiro.
Pela primeira vez no dia um discreto sorriso surgiu em seus lábios.
O prisioneiro sabia exatamente onde o pai estava, ele conhecia muito bem aquele homem. Ele havia matado sua mãe, o arrastado com ele para o inferno, o trancafiado em um calabouço e o esquecido por vários séculos naquele lugar. Aquele, acima de seu rei, era seu pai. O homem que ele mais havia odiado, o único ser que ele realmente queria ver morto.
A venda de ferro foi arrancada dos olhos do prisioneiro. Seus traços orientais eram tão visíveis quanto a pele incrivelmente branca, mas diferente dos olhos dos outros de sua raça, os dele não eram vermelhos, eram negros, negros como o ônix e emanavam uma emoção que não era possível ser percebida em nenhum de seus “semelhantes”.
De seus lábios vermelhos e cheios brotou um sorriso irônico, o sorriso evoluiu para uma gargalhada sinistra e alta. Os lábios do pai se contraíram em uma linha fina. Ele estava visivelmente irritado.
O conselheiro se pronunciou. Contravontade. Ele era o seu melhor amigo.
- Ryuuken, mestiço, um híbrido. Filho de Lúcifer. – Ele retraiu os lábios com raiva. – Sabe a razão de estar aqui?
O prisioneiro bufou, mas não de raiva, bufou com desdém.
- É claro que sei. – A voz dele assustou todos os presentes, fez com que até mesmo os reis estremecessem. Ele riu alto, e então prosseguiu, com a voz ainda mais triunfante. – Estou sendo acusado de roubo, assassinato, revelação de segredos, propagação de ideias obscuras à raça dos demônios, propagação de ideias revolucionárias à revoltosos e proteção indevida, crimes que em suma maioria não cometi.
- Estás negando? Negando os crimes que todos os aqui presenciaram a execução? Nega?
Lúcifer levantara-se em um pulo do trono, com a voz irritada, fazendo com que todos se assustassem. A voz dele parecia cortar cada centímetro de bondade do coração dos ali presentes, assustava até mesmo os mais corajosos ali. Ele havia se exaltado.
O prisioneiro sorriu.
- Nego.
Lúcifer apertou os olhos, ainda mais irritado que antes. Alisou os cabelos para traz, e então o fitou novamente, com os imensos olhos vermelhos.
- Podereis negar a maioria desses crimes, mas terás coragem de negar que protegeu o ser que deveria ser destruído? O ser que coloca todas as espécies aqui em risco? – Lúcifer sorriu. – Nega que protege aquela sangue-ruim por que está apaixonado por ela? – O prisioneiro ficou calado, bufando de raiva. – Estão vendo? Ele não nega! Ele coloca em perigo todos os nossos irmãos por luxúria, ou não confirma que sonha todas as noites em ter aquela mulher com você na sua cama, em beijá-la, amando-a? Negue os desejos de seu corpo, Ryuuken. Nega? Nega que coloca seus irmãos em perigo por puro egoísmo, por querê-la apenas para você e deixar que ela o conduza ao caminho do pecado e da perdição.
- Cale a boca Lúcifer. – Gritou tentando se livrar das correntes. – Quem pensas que és para falar em pecado e perdição? Você traiu o seu criador por poder!
Aquilo fora a gota d’água para Lúcifer. Como se não bastasse ter desobedecido suas ordens ainda tinha coragem de acusá-lo na frente de todos os reis, de todo o júri e defensores. Ele poderia ser o príncipe, mas era um rebelde.
- Você, Ryuuken Kasaki, está condenado á morte, pelos crimes de roubo, assassinato, revelação de segredos, propagação de ideias obscuras à raça dos demônios, propagação de ideias revolucionárias à revoltosos e, principalmente, pelo crime de proteção indevida ao ser que lhe foi confiado a morte. – Lúcifer parou e riu. – E condenamos também, Anne Bitton, pelo futuro incerto que ela nos deixa á frente, pelo fato de que não sabermos como enfrentá-la.
- Não. – Gritou o prisioneiro.
A fúria encheu seus olhos, o sangue correu mais rápido nas veias. As correntes se arrebentaram, as longas asas começaram á bater, o levantando no ar. Aquela era a mulher que ele amava, e ele jamais deixaria que ninguém chegasse á pensar em matá-la. Ele não iria continuar vivo sem ela.
- Você não tocará nenhum dedo nela. – Ele sorriu, e desapareceu no alto do tribunal.
- Peguem-no, e o tragam de volta... Mesmo morto. – Ordenou Lúcifer, com os olhos repletos de uma expectativa louca.
O carrasco ficou no chão, olhando irritado toda a cena. Sabia que o príncipe não deixaria isto assim. Estava fácil demais para ser verdade. Bufando irritado e decepcionado, arrastou os pés e voltou ao calabouço, sem nem um pingo de sangue real na espada. 

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