quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Capítulo 1 - Estupidamente.


Revivo a mágoa já vivida
E as velhas lágrimas... a fim
De que chorando, arrependida,
Possas lembrar-te inda de mim!
Baladas românticas
IV – Negra
Olavo Bilac.
E ali eu estava, mais uma vez, escorada na frágil parede de madeira esperando o transporte para ir a escola. Era entediante estar todos os dias no mesmo lugar, na mesma hora, indo fazer a mesma coisa que fazia todos os dias. Era entediante, mas por algum motivo naquele dia eu estava mais empolgada que o comum para ir à minha câmara mortuária.
Eu sou Anne Bitton, a aluna do 3º ano de ensino médio da Escola Cônego Leitão, cidadã da popular Castanhal. Eu deveria passar pelo desastroso processo de ensino na escola, no ano seguinte, provavelmente, uma faculdade pública de direito – como o meu pai quer – e deixar os dados rolarem. Era simples e completamente impossível, para mim.
Era impossível pelo fato de que eu nunca me encaixava em lugar algum, eu era o contrário de todas as outras garotas da minha idade, na verdade, eu não chegava aos pés delas. Minha vida social é tão insistente quanto a vontade de cursar direito, pelo fato de considerar minhas amigas apenas duas garotas, as duas garotas que mais se odeiam.
Roberta e eu estávamos juntas desde o primário. Fora a primeira pessoa que falou comigo quando cheguei á pequena escolinha. Eu era tímida demais para me enturmar com as outras crianças, e ela passou por todos os estágios da barreira que eu tinha colocado em meu coração. Ela não se importou em ficar do meu lado. Ela era uma das garotas mais bonitas da escola. Os cabelos eram cacheados e batiam pouco abaixo dos ombros, era baixinha, pouco mais de 1,55m, os olhos eram de um castanho claro e uma pele morena, pouco mais clara que a minha.
Cecília era o contrário dela. Havíamos nos conhecido no começo do ano passado. Em uma das piores brigas que tive com a Roberta. Ficamos mais de um mês sem nos comunicarmos, mas Cecília não se importou em me ajudar á superar a ausência dela. Apesar de ser linda e conseguir todos os garotos que ela quisesse, Cecília não se importava com a aparência dos outros.
Ela tinha com cabelos negros, batendo abaixo dos ombros, meio ondulados, os olhos eram de um verde intenso, a pele era branca, mas constantemente bronzeada, os lábios eram grandes e cheios, em um tom natural de vermelho, tinha pouco mais de 1,65m. Ela era, provavelmente, a garota mais bonita de toda a escola.
Roberta e Cecília se odiavam, mas antes de tudo isso elas eram amigas, e se adoravam, mas por algum terrível motivo haviam entrado em uma guerra louca, e eu estava no meio do campo de batalha, eu era a Helena de Tróia entre os gregos e troianos.
Cheguei à escola minutos antes do sinal soar indicando o tempo limite para a entrada. O tempo estava mais frio do que de costume, no entanto não era inverno. O céu se tinha escuro, uma camada de neblina cobria completamente a cidade e o vento soprava forte.
Os corredores estavam úmidos e frios, estremeci com tudo aquilo. Afaguei meus braços tentando esquentá-los, mas não adiantava, estava muito mais frio do que qualquer dia anterior. Não deveria estar passando dos 15º naquela manhã, e por algum terrível motivo eu havia esquecido o único casaco de frio que eu tinha em casa.
Com meus dentes batendo uns nos outros entrei na sala. Todos ali pareciam estar preparados para o frio daquela manhã, exceto eu. Eu me comunicava com quase todos eles, mas muito raramente. Cumprimentei os garotos no fundo da sala e andei para sentar-me na cadeira de costume: encostada na parede, na divisão entre duas panelinhas da sala. O grupinho dos garotos ficava atrás de mim, eles, provavelmente, eram o grupo mais legal daquela sala, e á minha frente se tinha o grupo dos que não queriam nada com nada, eram vários garotos e duas meninas.
Roberta chegou pouco depois de mim, colocou as coisas ao lado da garota com quem ela sentava todos os dias e seguiu para me cumprimentar, sentando-se na cadeira ao lado da minha, a qual nunca fora ocupada. Ninguém gostava de sentar ao meu lado... Eu era calada demais.
- Esqueceu o casaco? – Perguntou sorrindo.
Revirei os olhos e bufei. Ela gargalhou e tagarelou por alguns minutos sobre o dever de Biologia para a quarta aula, lembrando-se de cada detalhe insignificante que eu havia feito, como o cruzamento de um casal AaXaa para olhos azuis.
Mas ao ver Cecília entrando na sala ela bufou, levantou-se da cadeira, se despediu de mim e voltou á mesa dela. Cecília revirou os olhos, sentou na primeira cadeira da fila ao lado da minha e acenou na minha direção, acenei para ela de volta. O professor de História entrou, colocou as coisas em cima da mesa, nos cumprimentou e saiu da sala novamente.
Quando a porta se abriu, um cheiro maravilhoso de primavera japonesa entrou, um perfume que me era familiar, mas que eu não sabia á quem pertencia. Escutei o professor sorrir alto do lado de fora, e outra gargalhada melodiosa seguida da dele. Eu não conhecia o dono dela, mas sabia que pertencia á um garoto.
O professor voltou á sala e com ele entrou o garoto mais belo que eu já havia visto em toda a minha vida. Ele parecia ter saído da revista de moda masculina que minha prima havia comprado na semana que havia se passado. Era alto, mais de 2,10m de altura, muito mais branco que qualquer outro que eu já havia visto, tinha os braços fortes, mais musculosos que os dos outros garotos da minha turma, os olhos eram negros e puxados, ele era asiático, com toda a certeza, rodeados por longos e cheios cílios negros, uma sobrancelha grossa e perfeitamente desenhada, os lábios eram cheios e vermelhos, e os cabelos, diferente do de todos os outros garotos, eram incrivelmente longos, batendo abaixo da bunda, e negros, ainda mais negros que os olhos.
Escutei várias garotas suspirando ali perto. Observei os lábios de Cecília se arreganharem em um sorriso, e por algum motivo senti ciúmes, algo que eu não tinha direito de sentir. Eu nem o conhecia.
Mas ele não percebeu nada disso, seus olhos vasculharam toda a sala, ele pareceu sentir um perfume, sorriu e olhou na minha direção, fixando em mim o olhar penetrante dele. Baixei a cabeça envergonhada, todos pareceram me olhar, e aquilo me deixava constrangida. Fiquei ainda mais vermelha quando percebi que só havia duas cadeiras vagas na sala: a do lado de Cecília e a do meu lado. Suspirei aliviada, ele provavelmente iria escolher Cecília.
- Alunos este é Ryuuken Kasaki, chegou de Tóquio para estudar conosco. – Falou o professor com a mão no ombro dele. – Espero que finjam que são educados e não fiquem pegando no pé do garoto. – Falou olhando na direção do grupo á minha frente.
Todos na sala riram, o professor e ele falaram entre si por alguns segundos, eles riram juntos e em seguida o garoto começou a andar para se sentar. Cecília sorriu e piscou na direção dele, mas ele não pareceu perceber, tinha os olhos fixados em mim. Envergonhada, baixei a cabeça. Escutei-o sentar-se ao meu lado, senti nossos braços se tocarem. A jaqueta preta que ele vestia estava quente, mas o ar frio ao redor me fez estremecer.
- Não tens casaco? – Perguntou preocupado.
Estremeci mais uma vez com a voz dele, a qual era ainda mais melodiosa que sua risada, era uma voz rouca, sedutora e triunfante, do tipo que os líderes antigos tinham. Constrangida baixei a cabeça.
- Esqueci em casa. – Murmurei voltando a olhá-lo. – É raro fazer frio aqui. – Expliquei.
Ele riu e concordou. Deslizou a jaqueta pelos braços, deixando assim à mostra o largo e desenhado peito coberto pela fina farda da escola. Suspirei, aquele deveria ser o cara mais bonito que havia pisado naquela escola, ou melhor, o cara mais bonito que havia pisado na cidade. Ele me entregou a jaqueta, deixando-me envergonhada.
- Por... Por quê? – Perguntei assustada.
- Não quero que fique doente. – Respondeu sorrindo.
- Ah, obrigada. – Agradeci constrangida.
Deslizei a jaqueta pelos meus braços, apreciando o toque do tecido macio e quente em minha pele. As mangas haviam ficado mais compridas que o normal, mas não interferiu em nada. A jaqueta estava quente e concentrava ainda mais o perfume dele. Inspirei longamente aquele perfume maravilhoso.
Todos na sala olhavam abobados aquela cena. O garoto que havia rejeitado Cecília acabara de entregar a própria jaqueta à uma garota que não chegava nem aos pés dela.
Fiquei calada o tempo todo durante as três aulas de História. Ele rabiscava despreocupadamente algumas coisas no caderno com a caligrafia elegante, sem se importar em prestar atenção na aula, na verdade, nenhum de nós dois prestava atenção no que o professor tagarelava na frente do quadro.
Quando o sinal soou indicando o intervalo, o professor saiu da sala em silêncio, mais calmo do que em todos os outros dias. Levantei da cadeira me esticando, percebi que ainda tinha vestida a jaqueta dele. Envergonhada e sem vontade nenhuma eu a tirei.
- Obrigada mais uma vez. – Agradeci entregando-a a ele.
- Acho que deveria ficar um pouco mais com ela. – Respondeu se levantando da cadeira. – Não deve estar passando dos 17º.
Tive que erguer a cabeça para olhá-lo nos olhos. Ele sorria, e acabei me perdendo em seu sorriso. Ele colocou a jaqueta sob os meus ombros, assenti com a cabeça e tornei á passa-la pelos braços. Agradeci novamente, parecendo uma máquina.
Ele me olhou fixadamente nos olhos, não pude me libertar daquilo. Seus olhos negros me prenderam ali e não pude desviar. Então ele me pareceu estranhamente familiar, como se nos conhecêssemos a vários anos. Tudo nele me parecia familiar: seu sorriso, seus olhos, seu perfume, a voz e até mesmo o jeito que ele falava. Mas eu tinha quase certeza de que nunca havia o visto. Até onde eu sabia nunca havia estado em Tóquio, para a minha tristeza.
- Então? – Finalizou uma pergunta que eu não havia escutado.
- Ãn? O que... O que você disse? – Perguntei saindo de meu devaneio.
- Perguntei se não queria me ajudar á encontrar a lanchonete. – Ele sorriu. – Cheguei atrasado hoje e passei correndo para a secretaria, não tive tempo de ver nada.
Pisquei os olhos atordoada. Havia algo errado com esse garoto, era a única resposta sensata. Ele estava tentando ficar sozinho comigo, isso era óbvio, até por que a lanchonete era uma das poucas coisas que se era possível ver do prédio da secretaria.
Mas por que diabos ele iria querer ficar á sós comigo? Eu era deliberadamente comum. Sem tirar nem por. Ele poderia ir com Cecília, ou até mesmo com Roberta, se ela não fosse comprometida, ou melhor, ele poderia ficar á sós com qualquer garota linda da escola.
Ou ele realmente não havia visto a lanchonete ou era cego!
- Ah... Tudo bem. – Concordei assustada.
Peguei meu celular no bolso menor da mochila e algumas notas de dinheiro na carteira, para o caso de realmente estarmos indo á lanchonete. Observei Cecília andar na minha direção.
- Anne? – Chamou-me enquanto eu fechava a mochila.
- Humm? – Murmurei dando á entender que estava prestando atenção.
- A Helena quer ir lanchar naquela lanchonete que tem do lado de fora, perguntou se você quer ir. – Respondeu olhando maliciosamente para o garoto ao meu lado.
- Ah, não, obrigada. – Respondi. – Vou com ele á lanchonete da escola mesmo.
Ela me olhou assustada, então assentiu com a cabeça, mas antes de sair piscou na direção do garoto, ele sorriu, mas não com a mesma intenção que ela. Vi Helena olhar assustada na minha direção, seus olhos perguntavam o que todos ali queriam saber: que ligação eu e ele tínhamos. E para ser sincera nem eu mesma sabia dessa ligação.
- Vamos? – Perguntou sorrindo.
- Ah, claro. – Concordei retribuindo o sorriso, e ele pareceu maravilhado.
Andamos lado a lado para as escadas. Ele estava tão próximo de mim quanto na aula, por algum motivo estranho ele parecia querer estar comigo. Envergonhada arrumei o cabelo atrás da orelha e tirei um pouco da franja dos olhos e o olhei pelo rabo do olho, ele me olhava disfarçadamente.
Não percebi que tropeçara em meus pés enquanto descia os degraus. Tombei para o lado, bati a cabeça no corrimão da escada, mas antes que eu tocasse o chão ele me segurou, tão rápido quanto um ser humano poderia ser.
- Você está bem? – Perguntou com o terror nítido na voz.
- Estou. – Murmurei envergonhada.
Senti minha cabeça latejar, deixei um gemido baixo sair da minha boca. Ele me olhou assustado, não parecendo convencido com a minha resposta. Ele me ajudou á levantar, com cuidado para não me machucar.
- Não estou muito convencido disto. – Falou.
- Estou bem. – Disse irritada, me livrando dos braços dele.
Talvez ele tivesse me deixado sair se eu não houvesse quase caído mais uma vez. Cambaleei para o lado d novo, mas antes que eu caísse de novo ele me pegara pela cintura.
- Acho que devo levar-lhe para a enfermaria. – Falou.
- Não sei se em Tóquio existe enfermaria nas escolas, mas aqui não é bem assim o sistema. – Murmurei.
Ele apenas riu, me ergueu nos braços, me assustando, me constrangendo e me irritando. Meu corpo foi de encontro com o peito forte dele, balancei conforme ele andava. Ele parecia não ter problemas com o meu peso, parecia que para ele eu pesava 6 kg ao invés de 60.
As pessoas se viravam para olhá-lo me carregando para a sala da coordenadora, que para o meu constrangimento era uma conhecida minha e de Cecília. Nem precisamos chegar á coordenação para que ela corresse na nossa direção.
- Meu Deus! O que houve? – Perguntou ela tirando a franja de minha testa.
- Ela quase caiu da escada quando vínhamos para cá. – Respondeu ele. – Acho que bateu a cabeça, bem aqui. – Indicou colocando o dedo na parte de trás de minha cabeça.
Ela o guiou para a sala da coordenação, indicou um pequeno sofá preto no canto da sala e pediu que ele me colocasse ali. Ele concordou, me colocando deitada no sofá. Bufei irritada, ele não precisava ter chamado tanta atenção.
- Não precisava disso. – Murmurei.
- Você não estava nem conseguindo se manter de pé. – Respondeu. – Queria que eu a deixasse cair da escada mais uma vez?
- Não, mas fez um fuzuê na escola toda. – Disse tentando me sentar no sofá, mas minha cabeça girou.
A coordenadora me olhou preocupada, andou na minha direção e se colocou ao lado dele. Ela me olhava ainda preocupada.
- Fique quieta querida. – Pediu. – Quer ir para casa? – Perguntou prestativa.
Ir para casa seria uma boa.
Pensei nos prós e contras de ir para casa: lá eu não poderia estar com ele, – na verdade eu não sabia se isso era um pró ou um contra – teria mais chance para pensar, não iria tropeçar em meus pés olhando para ele.
Mas os contras eram mais: eu não poderia estar com ele – aqui era um contra -, eu não iria sentir o perfume dele, eu iria deixar todos pensando que estava fugindo dele, e todos pensariam que tínhamos alguma coisa.
Ela saiu da sala antes de escutar minha resposta. Ele alisou o cabelo em um gesto despreocupado, me olhando. Sentei no sofá e desta vez consegui me manter estável. Ele me olhou, suspirou e sorriu.
- Me desculpe. – Pediu cruzando os braços.
Eu assenti com a cabeça, o olhando de baixo. Senti-me completamente estranha, como se eu já não fosse aquela Anne de horas mais cedo, como se cada terminação nervosa de meu corpo houvesse acordado e estivesse me deixando louca na presença dele. Como alguém que eu mal conhecia já estava me deixando naquele estado? Quem era aquele homem? Que ligação era essa que nós tínhamos?
- Eu sei o que está pensando. – Falou me assustando.
- Sabe? – Perguntei assustada.
- Sim. Está se perguntando qual é a nossa ligação. – Respondeu fazendo com que eu pulasse de susto.
- Como... Como sabe?
Ele riu, se sentou ao meu lado, afastou a franja de minha testa e me olhou profundamente, me encarando como nunca ninguém havia feito. Não consegui desviar meus olhos dos dele, por alguma razão estava presa á ele.
- É preciso de um tempo para que eu possa te contar tudo, com todos os detalhes, e que você possa se lembrar, mas nós já nos conhecemos á 8 anos. – Respondeu.
O olhei assustada. Eu sabia que tínhamos alguma coisa nos ligando, mas não tinha certeza de que nos conhecíamos. Eu tinha certeza de que se eu realmente o conhecesse eu não o havia esquecido. Ele era o tipo de cara que não se esquece assim.
- Eu só preciso que confie em mim. – Pediu tocando meu rosto com a ponta dos dedos.
- Confiar? Por que confiar? – Perguntei.
- Por que eles não brincam em serviço. – Murmurou com a voz martirizada.
- Do que está falado? Quem não brinca em serviço? – Perguntei mais assustada que antes.
Ele ficou calado por um tempo, olhou a praça pela janela, ou tentando se esquivar de minha pergunta ou procurando a resposta correta para ela. Passados quase cinco minutos eu já estava inquieta.
- Ryuuken? – Estremeci ao falar o nome dele.
- Ryuu. – Falou.
- Como? – Perguntei assustada.
- Me chame de Ryuu apenas. – Pediu calmamente.
- Ah, então... Ryuu. Qual é a resposta? – Perguntei mais uma vez.
Mais uma vez ele ficou distante, procurando a resposta. Suspirei irritada. Mas ele demorou menos que antes.
- Só confie em mim, por favor. – Pediu mais uma vez.
Confiar... Nele? Eu não costumava confiar direito nem em Roberta e Cecília, imagine naquele estranho. Mas seus olhos me pareciam verdadeiros, ele não parecia estar mentindo, mas escondia algo realmente perigoso.
- Ryuu, eu... Eu tenho problemas em confiar nas pessoas. – Murmurei com a cabeça baixa . – E... E eu tenho o gênio um pouco forte demais. Não vai aguentar uma semana.
Ele riu, alisou meu cabelo e colocou um cacho atrás de minha orelha. Ele me puxou para mais perto e me abraçou. Aquele fora o primeiro garoto que me abraçara em anos.
Estremeci em contato com a pele quente dele, com o rosto enfiado em sua clavícula, suspirando longamente seu perfume delicioso.  Ele encostou o rosto no topo de minha cabeça e ali depositou um beijo.
- Eu já passei por todos os estágios de seu coração uma vez. Agora já sei as trapaças certas. – Brincou acariciando meu rosto.
Sorri debilmente para ele, o qual me devolveu um sorriso ainda mais largo e mais perfeito. Com o polegar ele desenhou o contorno de meus lábios e devaneou por alguns minutos, me olhando profundamente.
Vi Cecília, Roberta e Aurora na porta da sala da coordenação, nos olhando abobadas. Ele suspirou, podemos dizer que um pouco irritado, e se afastou alguns centímetros de mim. Roberta andou na minha direção e se sentou na cadeira á minha frente.
- Obrigada por socorrê-la. – Agradeceu á ele, sorrindo. Ele assentiu, também sorrindo, mas sem desviar os olhos de mim. – E você deveria tomar mais cuidado e olhar direito por onde anda. Você pode saber de muita coisa, mas diferente da sua imaginação, você não pode voar, O.K? – Ralhou-me.
- Desculpe-me. – Pedi baixando a cabeça.
Cecília andou na nossa direção, seguida por Aurora. Ela se sentou no braço do sofá e acariciou meus cabelos.
- Tropeçou de novo? – Perguntou preocupada.
Apenas assenti com a cabeça. Ela suspirou ali. Aurora me olhou, balançando a cabeça negativamente.
- Também lhe agradeço. Ela não presta muita atenção em por anda e tropeça constantemente. – Agradeceu Cecília.
- Não precisam contar á ele meus problemas de equilíbrio. – Murmurei envergonhada. Ele riu do meu lado.
- Você vai para casa? – Perguntou Aurora.
- Acho que estou bem o suficiente para enfrentar a aula de Biologia. – Murmurei.
Ela riu junto de Cecília e Roberta. Ryuu passou o braço por cima de meus ombros e brincou com o meu cabelo, sem se importar com elas ali.
- Acho que você está bem acompanhada, então vamos voltar para a sala de aula Aurora... Cecília. – Falou Roberta, quase cuspindo o nome de Cecília, a qual revirou os olhos.
- Cuidado com ela. – Pediu Cecília antes de sair com as duas. Ele assentiu.
Quando elas passaram novamente pela porta, ele tornou á me abraçar, me deixando confortável e envergonhada ao mesmo tempo. Ele continuou afagando meus cabelos, e devaneou por um tempo.
- Quer que eu á leve para casa? – Perguntou quando o sinal soou indicando o final do intervalo.
- Não, eu posso assistir a aula de Biologia. – Respondi.
- Tem certeza?
- Estou bem. – Falei mais uma vez.
Ele suspirou e assentiu com a cabeça. Levantou-se e me esperou de pé, ao lado do sofá. O segui, sem sentir a cabeça girando. Ele me guiou com o braço em meus ombros para fora da sala da coordenação, na direção da sala de aula. Subimos as escadas com mais cuidado que antes, e todos viraram para nos olhar quando entramos na sala.
Sentei á minha mesa e abri o caderno na matéria de Biologia, observei a atividade por um segundo procurando alguma falha, mas não encontrei. Eu costumava fazer aquilo antes de entregar um exercício, no entanto, naquele momento, eu queria era desviar um pouco da atenção dele.
A professora entrou na sala minutos depois, começou á pedir a atividade por ordem da caderneta, se demorando nas atividades de Cecília e Aurora, - as duas costumavam enrolar ela – e parabenizou Roberta quando ela saiu de lá.
- Ryuuken? – Escutei-a chamar da mesa dela.
Ele assentiu, andou na direção da mesa dela. Eles ficaram conversando por quase 10 minutos, em voz baixa. Quando ela falava ele ficava quieto e apenas assentia, só vi seus lábios se movimentarem algumas vezes, e me perdi neles.
Qual seria a sensação de beijá-lo? Aquela boca tão perfeita e carnuda tocando a minha, beijando cada canto de meu rosto e de meu pescoço, aqueles braços fortes e quentes em torno de minha cintura, aquelas mãos grandes acariciando meu rosto.
Arg, pare de pensar nisto idiota!
Mas que ele era uma perdição, isso ele era. E mesmo quem não pode comprar pode olhar a vitrine, não pode? Pode desejar e imaginar, não é?
- Anne? – Chamou-me ele sentando-se ao meu lado.
- Ãn? Como? – Perguntei balançando a cabeça freneticamente.
- Perguntei se estava se sentindo bem.
- Ah, sim, estou. – Murmurei envergonhada.
- Tem certeza? Posso levar-lhe para casa agora. – Ofereceu. – Você bateu muito forte com a cabeça.
- Estou bem. – Suspirei.
Ele pareceu deixar passar essa, relaxou na cadeira e rabiscou alguma coisa no caderno. Olhei, mas para a minha surpresa estava tudo em japonês.
O que ele tanto escrevia ali? O que significavam aqueles kanjis? Na verdade, quem era ele? Ou melhor... O que era ele? Toda aquela perfeição não poderia ser real, mas também não era imaginação. Ele me tocou, me abraçou, eu ainda vestia a jaqueta dele, sentia seu perfume no ar. Sabia que era boa em imaginar coisas, mas eu não poderia inventar tudo aquilo.
Desviei os olhos do caderno dele quando meu celular vibrou sob minhas pernas. Ele olhou pelo rabo de olho, mas voltou ao caderno em seguida. Abri a sms, era de Cecília.
Precisamos conversar seriamente quando sairmos!
Meus olhos vagaram até ela, a qual me olhava. Dei os ombros como se perguntasse o porquê. Ela apenas balançou a cabeça e movimentou os lábios como alguém que falava: na saída.
Bufei de raiva e quase bati com o celular na mesa. Cecília iria me encher de perguntas que nem eu sabia a resposta. Tinha que dar um jeito de fugir antes da saída. Então senti minha cabeça latejar onde eu havia batido, levei a mão até o local e flexionei um pouco.
- Está tudo bem mesmo? – Perguntou mais uma vez.
- Acho que vou aceitar a sua proposta de me levar para casa. – Disse forçando um sorriso débil. Aquela dor viera na hora certa.
Ele levantou e andou à mesa da professora, eles conversaram em voz baixa por alguns segundo e em seguida ele voltou à nossa mesa. Guardou as coisas dele e, antes que eu pudesse, guardou as minhas.
Andamos lado a lado até a porta, a professora me desejou melhoras e Cecília me olhou irritada, sabia que eu estava fugindo dela. Mas aquela era a pior opção de fuga. Eu queria ter espaço para pensar e ele iria estar comigo até que eu chegasse à parada de ônibus.
Andamos em silencio para fora da escola, passei direto pelo BMW branco do lado de fora. Mas ele me puxou quando continuei á andar.
- Aonde vai? – Perguntou ele.
- Como? Vou para a parada de ônibus esperar para ir para casa. – Respondi assustada.
- Eu falei que iria levar-lhe para casa, não falei? – Perguntou.
- Sim, mas não se pode ir de pé para a minha casa. – Respondi.
- Quem te falou que vamos de pé? – Perguntou rindo e indicando o carro.
- Você tem um carro? – Perguntei assustada. – O que faz em uma escola pública se tem dinheiro para comprar um carro desses?
- Em breve irá saber. – Respondeu abrindo a porta do carro para que eu entrasse.
Bufei irritada e entrei no carro, ele andou rindo para o lado do motorista, minha irritação passou com o riso dele, mas ainda sentia uma raiva profunda por não saber de nada.
Ele deu partida no carro, mas antes de sair ele se virou para mim, me olhou por alguns segundos e pegou um de meus cachos, enrolando-o no dedo dele.
- Desculpe-me por não lhe contar ainda. – Pediu. – Não quero que fique remexendo tudo na sua cabeça.
- Ryuu, você apareceu do nada dizendo que me conhece á 8 anos, provavelmente veio á essa escola para me procurar por algum motivo e não me conta. – Suspirei envergonhada. – Que tipo de relação nós tínhamos? Ou temos, sei lá.
Ele suspirou, relaxou no banco e olhou o céu. O tempo não havia mudado, o céu ainda estava escuro e uma camada fina de neblina cobria a cidade. Ele se virou para me olhar.
- Nós nos conhecemos quando você precisou de ajuda, quando descobriu que seu pai não era seu pai biológico. – Respondeu me assustando.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Condenação


O homem estava acorrentado, jogado em algum lugar escuro no fundo do calabouço. O ar frio e úmido que poderia fazer qualquer outro ser congelar não surtia nenhum efeito nele. Seus longos cabelos negros caiam em sua face, escondendo a grossa e pesada venda de ferro que o cegava. O sangue quente escorria por toda a extensão branca de sua pele, tingindo-a de vermelho.
Ele sorriu, mostrando os perfeitos e reluzentes dentes brancos, agitou as grossas correntes e as deixou desabar no chão, fazendo com que as paredes estremecessem com o impacto. Ele sorriu mais uma vez, apesar dos visíveis machucados espalhados por todo o corpo.
Era possível escutar o som de passos ao longo do tenebroso e escuro corredor. A porta se abriu, o carrasco entrou por ela, com um largo sorriso no rosto.
- Deixou seu pai muito furioso, Ryuuken. Estou tão triste que isto tenha que acontecer a você. – O homem sorria, se contradizendo. Estava claro que ele não sentia nenhum pouco. – Chegou a hora do seu julgamento.
Ryuuken sorriu, o homem o puxou pelas correntes e o ergueu, com um único braço. Os olhos vermelhos dele estavam cheios de excitação. Ele esperava aquele momento á muito tempo. Nada iria tirar dele o gosto da vitória.
Levar o filho do rei que o havia desobedecido para a condenação, colocando em perigo toda a raça, era o seu maior sonho desde a noite da noticia da traição do príncipe mestiço, - o fato de ele ser um mestiço já era uma afronta á toda a raça, mas para o rei isso não era desculpa, ele tinha que cumprir as obrigações, ser tratado como o príncipe revoltado de todo aquele reino... Reino este que deveria ser dele. – por pura luxúria.
Maldita sangue-ruim.
Pensava enquanto arrastava o príncipe pelo corredor, sem se importar com os tufos de penas negras que ficavam no caminho, as asas, que dias antes haviam sido quebradas, já estavam completamente curadas.
No fundo o carrasco estava decepcionado. Queria que o príncipe resistisse mais. Aquele era o filho do rei? O tão poderoso Ryuuken Kasaki? Vencedor de inúmeras guerras e batalhas em seu pequeno milênio de vida? Aquele era o descendente do inferno? O filho de Lúcifer?
Que príncipe imbecil.
Parecia que todos os habitantes da dimensão dos reis estavam do lado de fora do tribunal, apenas por não poderem entrar senão o tribunal estaria completamente lotado de pessoas. Aquele seria o julgamento do século, nenhum rei antes dele havia condenado o próprio filho, com tamanha frieza.
Dentro do tribunal o clima era ainda mais cheio de expectativa. Os reis cochichavam entre si, mas Lúcifer estava calado, pensativo, não deixava nenhuma emoção atravessar seu rosto de pedra. Sentado no enorme e confortável trono viu o carrasco entrar arrastando seu filho, o seu herdeiro.
Pela primeira vez no dia um discreto sorriso surgiu em seus lábios.
O prisioneiro sabia exatamente onde o pai estava, ele conhecia muito bem aquele homem. Ele havia matado sua mãe, o arrastado com ele para o inferno, o trancafiado em um calabouço e o esquecido por vários séculos naquele lugar. Aquele, acima de seu rei, era seu pai. O homem que ele mais havia odiado, o único ser que ele realmente queria ver morto.
A venda de ferro foi arrancada dos olhos do prisioneiro. Seus traços orientais eram tão visíveis quanto a pele incrivelmente branca, mas diferente dos olhos dos outros de sua raça, os dele não eram vermelhos, eram negros, negros como o ônix e emanavam uma emoção que não era possível ser percebida em nenhum de seus “semelhantes”.
De seus lábios vermelhos e cheios brotou um sorriso irônico, o sorriso evoluiu para uma gargalhada sinistra e alta. Os lábios do pai se contraíram em uma linha fina. Ele estava visivelmente irritado.
O conselheiro se pronunciou. Contravontade. Ele era o seu melhor amigo.
- Ryuuken, mestiço, um híbrido. Filho de Lúcifer. – Ele retraiu os lábios com raiva. – Sabe a razão de estar aqui?
O prisioneiro bufou, mas não de raiva, bufou com desdém.
- É claro que sei. – A voz dele assustou todos os presentes, fez com que até mesmo os reis estremecessem. Ele riu alto, e então prosseguiu, com a voz ainda mais triunfante. – Estou sendo acusado de roubo, assassinato, revelação de segredos, propagação de ideias obscuras à raça dos demônios, propagação de ideias revolucionárias à revoltosos e proteção indevida, crimes que em suma maioria não cometi.
- Estás negando? Negando os crimes que todos os aqui presenciaram a execução? Nega?
Lúcifer levantara-se em um pulo do trono, com a voz irritada, fazendo com que todos se assustassem. A voz dele parecia cortar cada centímetro de bondade do coração dos ali presentes, assustava até mesmo os mais corajosos ali. Ele havia se exaltado.
O prisioneiro sorriu.
- Nego.
Lúcifer apertou os olhos, ainda mais irritado que antes. Alisou os cabelos para traz, e então o fitou novamente, com os imensos olhos vermelhos.
- Podereis negar a maioria desses crimes, mas terás coragem de negar que protegeu o ser que deveria ser destruído? O ser que coloca todas as espécies aqui em risco? – Lúcifer sorriu. – Nega que protege aquela sangue-ruim por que está apaixonado por ela? – O prisioneiro ficou calado, bufando de raiva. – Estão vendo? Ele não nega! Ele coloca em perigo todos os nossos irmãos por luxúria, ou não confirma que sonha todas as noites em ter aquela mulher com você na sua cama, em beijá-la, amando-a? Negue os desejos de seu corpo, Ryuuken. Nega? Nega que coloca seus irmãos em perigo por puro egoísmo, por querê-la apenas para você e deixar que ela o conduza ao caminho do pecado e da perdição.
- Cale a boca Lúcifer. – Gritou tentando se livrar das correntes. – Quem pensas que és para falar em pecado e perdição? Você traiu o seu criador por poder!
Aquilo fora a gota d’água para Lúcifer. Como se não bastasse ter desobedecido suas ordens ainda tinha coragem de acusá-lo na frente de todos os reis, de todo o júri e defensores. Ele poderia ser o príncipe, mas era um rebelde.
- Você, Ryuuken Kasaki, está condenado á morte, pelos crimes de roubo, assassinato, revelação de segredos, propagação de ideias obscuras à raça dos demônios, propagação de ideias revolucionárias à revoltosos e, principalmente, pelo crime de proteção indevida ao ser que lhe foi confiado a morte. – Lúcifer parou e riu. – E condenamos também, Anne Bitton, pelo futuro incerto que ela nos deixa á frente, pelo fato de que não sabermos como enfrentá-la.
- Não. – Gritou o prisioneiro.
A fúria encheu seus olhos, o sangue correu mais rápido nas veias. As correntes se arrebentaram, as longas asas começaram á bater, o levantando no ar. Aquela era a mulher que ele amava, e ele jamais deixaria que ninguém chegasse á pensar em matá-la. Ele não iria continuar vivo sem ela.
- Você não tocará nenhum dedo nela. – Ele sorriu, e desapareceu no alto do tribunal.
- Peguem-no, e o tragam de volta... Mesmo morto. – Ordenou Lúcifer, com os olhos repletos de uma expectativa louca.
O carrasco ficou no chão, olhando irritado toda a cena. Sabia que o príncipe não deixaria isto assim. Estava fácil demais para ser verdade. Bufando irritado e decepcionado, arrastou os pés e voltou ao calabouço, sem nem um pingo de sangue real na espada. 

Prólogo


Iniciado quando, após acordar de um pesadelo – os quase eram frequentes -,
não consegui mais dormir...





Baseado neste mesmo pesadelo.











O mais perfeito, surreal, misterioso, envolvente e ...
“verdadeiro” que existe.






Para o garoto com quem sonhei quase todas as noites desde meus dez anos, o qual “cresceu” comigo e que no atual momento me faz uma extrema falta.
Meu “amigo imaginário”, o qual nunca vi o rosto e nem ao menos sei se existe, ou se ele pertencia apenas á um de meus inúmeros sonhos.